“Imagine ver os pobres imigrantes. Com seus filhos em suas costas e com suas tralhas, arrastando-se pelos portos e costas em busca de transporte. Vocês reis sentam-se em seus desejos, a autoridade morreu em sua revolta. Mas garantidos por eles, o que vocês pensam ao agirem assim? Essa é a situação dos estrangeiros e essa é a sua gigantesca desumanidade.”
(William Shakespeare, século 16)
Distribuição Paris Filmes – Cartaz de divulgação
Assim começa o filme “O caso dos estrangeiros”: com a citação a um trecho do Ato 2, Cena 4, da peça de título “Sir Thomas More”, que tem manuscrito atribuído a diferentes contribuições de artistas da época (século 16), mas muito relacionado a William Shakespeare. O texto possivelmente foi escolhido para iniciar o drama justamente por ser um discurso de More aos manifestantes “contra-imigrantes” no “Evil May Day” (em tradução livre: “o dia do mal”), ocorrido em Londres, em 1517.
Da mesma maneira que os escritores da peça nos provocam a refletir sobre a existência e dores dos imigrantes, Brandt Andersen, agora no século 21, nos provoca a considerações semelhantes, em seu longa-metragem. Esse, inspirado no curta-metragem “Refugee” (2020), dirigido também por Andersen.
Distribuição Paris Filmes – Cartaz de divulgação
Enquanto o curta traz às telas uma narrativa centrada num único médico sírio tentando fugir de Alepo (Síria) com sua filha, o longa-metragem nos apresenta cinco histórias que se entrelaçam em momento decisivo. “O caso dos estrangeiros” tem como situação desencadeadora uma tragédia em meio à guerra na Síria. A partir disso, somos apresentados a uma médica, um soldado, um contrabandista de pessoas, um poeta e um capitão que, embora tivessem nada a ver um com os outros, partilham dores semelhantes, além do desejo e necessidade garantir segurança física e emocional aos seus amores e a si próprios.
Partindo da Síria, o filme passa também pela Turquia até a finalização na Grécia. Os cortes de cenas em momentos decisivos dividem a história em diferentes pontos de vista de cada personagem e representam, a meu ver, as interrupções bruscas e violentas nas vidas dessas pessoas. Mais do que o deslocamento geográfico repentino, as personagens têm suas identidades roubadas pela dureza das decisões que precisam tomar: a mãe, a médica reconhecida, o leal defensor da sua pátria, o pai cuidadoso… seria possível se manter nesses postos sociais, depois de tanta dor e mudanças brutais?
Distribuição Paris Filmes – Pôster de divulgação
“O caso dos estrangeiros” nos transporta para dentro das situações, por conta dos ângulos das câmeras, provocando tensão e angústia a todo momento, sobretudo nas cenas dentro do mar. A expectativa para saber o que vai acontecer é constante e, embora saibamos que existem guerras em outros países, pouco temos acesso às histórias por trás dos escombros estampados nos noticiários (as perdas de locais de origem, de famílias, profissões, valores…). Mesmo que resumidamente, “I was a stranger” apresenta um recorte do que pode estar acontecendo com milhares de pessoas neste exato momento, do outro lado do mundo.
FICHA TÉCNICA
Título: I Was A Stranger / O caso dos estrangeiros
Gênero: Drama, Suspense
Direção: Brandt Andersen
Distribuição: Paris Filmes
Ano de produção: 2024
Duração: 104 min.
Classificação: 16 anos
Data de lançamento no Brasil: 26 de fevereiro de 2026, nos cinemas
Sinopse:
“Quando uma médica síria é forçada a fugir de Aleppo com sua filha, uma escolha desesperada desencadeia uma série de eventos que atravessam fronteiras e acabam envolvendo quatro estranhos na mesma história. No caminho, ela cruza com um contrabandista que tenta salvar o próprio filho, um soldado em conflito com a própria consciência, um poeta em busca de um lar e um capitão da guarda costeira grega dividido entre o dever e a compaixão. Seus destinos se entrelaçam em uma única noite no Mediterrâneo, onde a sobrevivência é incerta e a humanidade se revela em sua forma mais crua.”
Este artigo foi escrito por:
Lorena Ribeiro
Lorena Ribeiro é soteropolitana, graduada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia e mestra em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Escritora, produz poesias, contos e literatura infantil. É idealizadora do projeto Passos entre Linhas, e com ele tem como foco a divulgação de autores da Bahia, principalmente autoras negras. É também idealizadora do projeto Lendo a Bahia (incluindo o clube de leitura de mesmo nome). Lorena tem publicado o livro infantil “O divertido glossário da Jana”, e faz parte de antologias de poesias e contos. Lançou em 2024 o seu primeiro livro artesanal de poesia: Amuleto.
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Fiquei curioso para assistir. Obrigado por compartilhar sua visão. Excelente texto.
Lorena Ribeiro é soteropolitana, graduada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia e mestra em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Escritora, produz poesias, contos e literatura infantil. É idealizadora do projeto Passos entre Linhas, e com ele tem como foco a divulgação de autores da Bahia, principalmente autoras negras. É também idealizadora do projeto Lendo a Bahia (incluindo o clube de leitura de mesmo nome). Lorena tem publicado o livro infantil “O divertido glossário da Jana”, e faz parte de antologias de poesias e contos. Lançou em 2024 o seu primeiro livro artesanal de poesia: Amuleto.
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Fiquei curioso para assistir. Obrigado por compartilhar sua visão. Excelente texto.
Muito obrigada, Rafa. Pois então, assista, viu?! Rs.