Ricardo Aleixo, poeta, pesquisador e multiartista, lançou em 2022 o livro de poemas: “Diário da Encruza”, publicado pela Editora Organismo (fazendo parte da coleção Contemporaneidades Periféricas) e a LIRA – Laboratório Inteartes Ricardo Aleixo.
A coleção Contemporaneidades Periféricas (organizada pelo pesquisador, docente e escritor Jorge Augusto) é um projeto da Editora Organismo, e reúne estudos, ensaios e produções literárias que trazem à tona temáticas densas; escritas de resistências produzidas por artistas que têm seus corpos postos às margens nas dinâmicas sociais. Como parte da coleção, por exemplo, além de “Diário da Encruza”, do mineiro Ricardo Aleixo, estão publicados:
– Trans Formas São, de Alex Simões
– Antipática Lira, de Santiago Fontoura
– Beira Marinho, de Alex Ratts
– Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof, de Sílvio Roberto Oliveira
– Maturando pernas em rabo de peixe, de Martha Galrão
– Palavra Preta, de Tatiana Nascimento (finalista do Prêmio Jabuti 2022)
– Oblíqua Glosa, de Maria Dolores Rodriguez
Esse último, que foi, inclusive, apresentado mais detalhadamente no canal Passos entre Linhas, com uma grata entrevista com a autora.
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“Diário da encruza”, livro que teve coordenação editorial de Jorge Augusto, quem Aleixo diz ter aberto “as portas desta Casa editorial [a Organismo] para o [seu] palavreado vagabundo”, é todo construído em tons terrosos, com capa e projeto gráfico desenvolvidos pelo próprio poeta, que planejou cada detalhe, desde a fonte escolhida para construção da obra: a Paideuma Barroco, criada pelo designer mineiro Mário Vinícius.
Os poemas que compõem essa coletânea foram escritos entre os anos de 2015 e 2022, muitos publicados pelo artista nas redes sociais, como uma maneira de expor reflexões e inquietações sobre questões sociais, sobretudo norteadas pela raça – ponto intrínseco às produções do Aleixo.
“[…]
porque todo
corpo negro
é um campo
minado“
Em “Diário da Encruza”, os poemas (a meu ver) traduzem o autor, e nos permitem conhecer um pouco desse multiartista que, criativamente, transmite por meio dos vocábulos tão atentamente escolhidos para criação dos textos, muitas vezes em neologismos, jogos de letras e palavras: reflexos de dores, afetos (voltados para si e para outrem), lutas, posicionamento político, aquilombamentos…
E o texto que dá título ao livro permite elucidar essa afirmação:
Diário da encruza
“Eu penso negro, torto,
esquerdo. Escrevo
do mesmo jeito, e é
assim, também, que vivo.
Na encruzilhada. No meio
do redemunho. Negro.
Torto. Esquerdo. Vivo.“
Trazer esse poema para este texto, me fez lembrar que li uma entrevista do Ricardo Aleixo, concedida à jornalista Márcia Maria Cruz, para o “Estado de Minas”, em 2021, em que ele diz que “O Diário da encruza […] é a tentativa de entendimento da encruzilhada não como um beco sem saída, como o ocidente pensa. Mas a encruzilhada como lugar de movimento, […] lugar de Exu, […] de coisas acontecerem”, e ao ler o livro, penso que essa tentativa foi muito bem sucedida; porque sua palavra-invento me fez iniciar estudos, registrar apontamentos; me provocou para ações, em direção a movimentos para além do apenas receber e compreender o que foi lido e ponto. Pesquisas essas não somente sobre temáticas abordadas nos poemas, como também sobre personalidades tão importantes em nossas lutas e processos de fortalecimento pessoal e coletivo.
“Diário da encruza” é, além de combustível, acalento, por nos mostrar que:
“SOMOS
(um quilombo
móvel)
PORQUE
(dentro
do
outro)
SOMOS“



